O eleitorado marcou impedimento: o insucesso dos boleiros nas urnas

Atualizado em 17 de novembro de 2020, às 16h12

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Todos temos o direito de nos candidatarmos às disputas legislativas e executivas, mas é necessário mais do que isso para conquistar uma cadeira política. A fama como jogador em regra não basta para que uma vitória nas urnas venha. Historicamente isso é demonstrado. O que transparece (o que se passa, a percepção) muitas vezes é que o jogador aposentado busca na carreira política, uma fonte de renda apenas, se esquecendo que é necessário todo um trabalho de base para se chegar a uma eleição.

Por outro lado, o cientista político Tiago Valenciano aponta outro caminho para a entrada desses jogadores. “Normalmente são seduzidos pela popularidade vendida pelos dirigentes partidários. Muitos dirigentes buscam personagens famosos para puxar votos”.

Para se ter ideia, com a ajuda de nossos seguidores no Instagram, conseguimos identificar quase 50 nomes de jogadores ativos ou aposentados que concorreram a uma cadeira no legislativo municipal, mas apenas três foram eleitos, sendo que dois nomes foram descobertos após a apuração.

O goleiro Vinícius, do Remo, se candidatou a vereador em Belém, pelo Republicanos, e foi o único jogador ativo da nossa pesquisa a conquistar o cargo no legislativo. O arqueiro tem 36 anos e está há quatro no Remo. Ele é nascido em Goiânia, onde começou no futebol pelo Vila Nova e rodou o Brasil até chegar a capital paraense, onde promete ficar por mais três anos, assumindo as duas posições paralelamente.

O novo desafio de Vinicius será na Câmara de Vereadores de Belém

O segundo eleito foi o atacante Agnaldo, que passou por Corinthians, Vitória, Grêmio e Brasiliense. Hoje, ele é mais conhecido como Guina na cidade onde nasceu, Paranacity, e com 165 votos, o nono mais votado, ele garantiu uma cadeira no legislativo, pelo PTC, o que havia tentado em 2016, mas falhou.

Na foto, dois atuais políticos. Agnaldo jogou com Bebeto, deputado estadual no Rio, no Vitória

Para completar, o mais alternativo jogador encontrado a vencer uma eleição é Paulista, que foi zagueiro do América Mineiro e Caldense em 2002 e 2003, respectivamente. Quando jogador, ele usava seu nome original, Wellington, para identificação. Ele é nascido em Maringá (PR), mas fincou raízes em Poços de Caldas e se elegeu vereador com a terceira maior votação, atingindo o número de 1.861, pelo Democratas.

Wellington, o Paulista, fez seu nome na cidade mineira e se elegeu vereador

“Em linhas gerais, atribuímos isso a uma tendência de normalização do eleitor, que buscou mais o centro nesta eleição do que os polos direita/esquerda. Este modelo favoreceu quem esteve no governo ou já era mais conhecido politicamente – caso que não condiz com a maioria dos jogadores de futebol que, tal qual os radialistas, que tem perdido espaço na política. Quer dizer, não basta serem conhecidos, precisam ter o capital político necessário para o sucesso eleitoral”, afirma Tiago.

A fala do cientista política vai de encontro a esses casos, onde ser ídolo não resultou em nada para certos jogadores-candidatos, como Sima (River – Teresina), Jacozinho (CSA – Maceió), Saulo (Paraná – Curitiba), Léo Maringá (Maringá FC – Maringá), Zé Augusto (Paysandu – Belém), Kuki (Náutico – Recife) e Carlinhos Bala (Sport e Santa Cruz – Recife). Eles tiveram uma votação ínfima perto da popularidade que têm como nomes históricos dos clubes que vestiram a camisa, o que foi a regra entre os boleiros.

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Os insucessos da candidatura da bola

Belém foi a capital mais futebolística das eleições com seis candidatos. Além dos citados Vinicius e Zé Augusto, Anderson Cruz (lateral do Remo), Vandick (atacante do Paysandu), Marquinhos Belém (lateral do Remo) e Agnaldo (volante do Remo) entraram na eleição, mas ficaram longe de qualquer possibilidade de ganharem.

Alguns grandes nomes saíram das capitais onde tiveram carreira consolidada para disputar o pleito nas cidades onde nasceram. Tivemos duas situações distintas, mas com o mesmo final. O primeiro grupos são dos atletas que tiveram votação chamativa, mas “escolheram o partido errado”, ficando sem vaga pelo quociente eleitoral, como Paulo Almeida (Santos – Itarantim-BA) e Bugrão (Grêmio Maringá – Sarandi-PR). O primeiro teve 303 votos, sendo o oitavo mais votado, mas os candidatos do seu partido não ajudaram e ele ficou de fora da Câmara de Vereadores local. O segundo foi o sétimo mais votado na cidade vizinha de Maringá, onde foi ídolo, com 908 votos, mas perdeu pelo quociente.

O resultado das urnas para Paulo Almeida foi como se tivesse feito três gols na partida em jogada individual, mas o restante falhou no sistema defensivo e tomou quatro tentos. É mais ou menos assim que funciona o quociente eleitoral

Os outros casos são de insucessos completos. Em Campos dos Goytacazes, o zagueiro Odvan teve apenas 228 votos; Macedo, ex-Santos e Grêmio, teve 134 eleitores em Americana, interior paulista; Narciso, grande nome do Santos no fim dos anos 1990 e começo desse século, fez apenas 238 votos no município do litoral e Vélber, ex-Paysandu e São Paulo, fez apenas 119 votos em Benevides, município da Região Metropolitana de Belém.

Ceará, ex-Cruzeiro e Internacional, voltou para Nova Lima esse ano como dirigente do Villa Nova, mas nada disso adiantou para ele na eleição legislativa, onde teve 340 votos e ficou com a vaga de suplente. Outros que conseguiram ficar na suplência, foram Maizena (Fortaleza, Sport e Internacional – Fortaleza); Adriel Pajé (Linhares FC – Linhares), Chiquinho (Vitória e Sport – Olinda), Marquinho Carioca (Vasco e Flamengo – São João de Meriti-RJ), David Coió (jogou o Sergipano 2020 pelo Itabaiana – Boquim-SE) e Diego Barros (Remo e Grêmio Barueri – Tatuí-SP).

Dispensado do Itabaiana durante o Sergipano, David se aventurou na política e ficou perto da eleição

Histórias de superação também não foram capazes de reeleger Ratinho. Com anos de Rio Branco de Paranaguá, o atacante saiu da aposentadoria esse ano para completar o elenco do Leão da Estradinha na volta do Campeonato Estadual. Ele ocupa o cargo de vereador atualmente. Em 2016, ele foi eleito com 824 votos, mas caiu muito no pleito do dia 15 de novembro, com 484 eleitores o escolhendo para a reeleição que não aconteceu.

Ratinho Miguel como aparece nas urnas perdeu quase metade dos votos de 2016

Pensar politicamente durante a carreira de atleta pode ser o diferencial para que se busque algo a mais quando o jogo for político.

ATUALIZAÇÕES

Após a publicação do nosso texto, surgiram outros nomes que foram eleitos em pleitos municipais:

  • Ney Santos, que se candidatou com o nome Ney Maruim, se elegeu na cidade sergipana de Maruim, onde nasceu, com a terceira maior votação, sendo filiado ao PT. Ele tem passagens pelo Confiança, Sport e sete anos de futebol português, sendo seis temporadas no Vitória de Setúbal
  • Em São José dos Campos, dois ex-jogadores foram eleitos: Fabião Zagueiro, pelo Solidariedade, e Renato Santiago, pelo PSDB. O zagueiro foi o nono mais votado. Ele ficou como suplente na eleição de 2016 e agora garantiu a vaga oficial. Fabião foi zagueiro do São José em 1996, 1997 e 1999 e esteve no elenco que conquistou o acesso à Série A1 em 1996. Já Renato, é um dos principais atacantes deste século no clube, com quatro passagens, e terminou na 12ª colocação entre os 21 eleitos.

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