Debutantes da Austrália: Macarthur FC, os touros indomáveis de Sydney

Projeto ambicioso, atletas de alto nível, envolvimento da comunidade, trabalho social de favorecimento às minorias e mascote com história original, conheça o Macarthur FC, debutante da A-League 2020/21

por Eduardo Vieira, editor do perfil A-League Brasil no Twitter (@aleaguebr) e do Podcast Australianão no Spotify e YouTube

Diferentemente de tradicionais ligas mundo afora onde clubes comemoram aniversários centenários ou perto disso, o futebol australiano presencia comumente a criação de novos clubes, principalmente nos últimos 15 anos. Isso se deve ao fato da reformulação que vive o esporte no país, que começou com a criação da A-League, em 2005, e segue em andamento ainda na tentativa de solidificar o esporte bretão na terra dos cangurus, como falamos em nossa introdução ao futebol na Austrália.

O mais novo desses clubes é o Macarthur FC, equipe que estreará na competição na temporada 2020/2021. Mesmo novato, o clube do sudeste de Sydney já chega a liga cheio de histórias a serem contadas.

A lenda dos touros indomáveis, pioneirismo em dar voz a seus sócios torcedores, contratação de nomes que fazem parte da lista de selecionáveis dos Socceroos e investimentos na primeira academia de futebol indígena do país, são ingredientes que mostram que o Macarthur promete não ser apenas mais um novo clube do futebol australiano.

Vamos te apresentar nesse texto tudo o que você precisa saber sobre o caçula da A-League.

Macarthur South West United Football Club

Como parte da reformulação do futebol australiano, a A-League nasceu em 2005 num formato de franquias, parecido com o da Major League Soccer, nos EUA, onde clubes-empresa pagam por uma licença para ter o direito de participar da competição.

Assim aconteceu com o Macarthur FC, anunciado pela Football Federation of Australia (FFA) em dezembro de 2018, nascido da fusão de duas propostas separadas durante o processo de expansão da liga, United for Macarthur e South West Sydney FC. Originários da mesma região, os grupos uniram forças e criaram o Macarthur South West United Football Club.

A região de Macarthur, em Sydney, é historicamente conhecida por sua tradição no grassroots australiano, o autêntico futebol raiz. Com pouco mais de 300 mil habitantes, o subúrbio abriga mais de 70 clubes entre o futebol amador e as divisões regionais da National Premier League e cerca de 24 mil atletas, entre homens e mulheres, registrados em todos os níveis de futebol.

Além disso, Macarthur é uma das regiões que mais cresce em Sydney, com economia impulsionada pela expansão da cidade para o lado oeste e a construção de um aeroporto já em andamento. A estimativa é atingir mais de 1 milhão de habitantes nos próximos dez anos.

A proposta do Macarthur FC surge a fim de surfar na onda desse crescimento e unir a comunidade tradicionalmente apaixonada pelo futebol no entorno do que se propõe a A-League.

Berço de talentos

Com toda essa tradição no esporte, não à toa a região revelou grandes talentos para o futebol australiano. O maior de todos no país, Harry Kewell deu seus primeiros chutes nos gramados do sudeste de Sydney. Além dele, nomes como Brett Emerton, Paul Okon e Tony Popovic, e jogadoras como Heather Gariock e Alanna Kennedy, iniciaram suas trajetórias por lá.

O nome e mascote

O nome Macarthur foi escolhido após um extenso processo de consulta à comunidade local. Sua origem vem do casal Elizabeth e John Macarthur, fundadores e pioneiros da indústria da lã australiana. A propriedade original da família Macarthur cobria três dos councils locais, Camden, Campbelltown e Wollondilly, que formam grande parte da região.

Em seu lançamento, o Macarthur FC recebeu a alcunha de “The Bulls”, em referência a uma história curiosa das origens da região. Logo após assentamento europeu definitivo na Sydney Cove, em 1788, um rebanho de quatro vacas e dois touros trazido pelos navegadores britânicos se desviou do cercado e se perdeu.

Evento de lançamento do clube para a comunidade

Anos depois, em 1795, o rebanho foi encontrado entre o Rio Nepean e o Rio Georges com 61 cabeças de gado. A área foi prontamente chamada de “Cow Pastures”, ou Pastagem de Vacas, e considerada uma área restrita para fornecer proteção contínua ao rebanho. A restrição, porém, durou pouco, pois o rebanho foi considerado agressivo demais para ser domesticado e precisou ser destruído.

Nasce então a lenda dos touros indomáveis de Macarthur, ingrediente para lá de original para a escolha de um mascote.

Logo e uniformes

A logomarca foi desenvolvida pelas designers Daniela Dalfonso e Daniela Vicano, donas de uma agência criativa situada em Macarthur. Como não poderia ser diferente, a logo traz um touro como destaque, demonstração de força e representação da história dos touros indomáveis da região. As três estrelas representam a ligação do clube com suas bases: a comunidade, seus clubes da National Premier League e a A-League.

As cores branco e preto representam a diversidade cultural e racial de Macarthur, enquanto o dourado homenageia o povo aborígene Dharawal, nativos da região.

“Foi o maior trabalho que fizemos em toda nossa história. Todo o processo foi um ponto alto da nossa carreira. Estamos falando de um clube esportivo nacional, criamos algo que pode durar centenas de anos”, palavras das designers ao jornal South West Voice, de Sydney.

Os uniformes foram desenhados pela marca esportiva italiana Macron. O branco foi escolhido como a cor principal e o preto ficou para o uniforme número 2. Como destaque trazem uma cabeça de touro em relevo no terço inferior frontal da camisa.

Estádio e centro de treinamentos

O time mandará seus jogos no Campbeltown Stadium, com capacidade para 20 mil espectadores. Um estádio multiuso que também é utilizado pelo Western Suburbs Magpies e pelo Wests Tigers, times de Rugby da região.

O centro de treinamentos foi cedido pelo council de Fairfield City, também no sudeste de Sydney. O Fairfield Showground recebeu recentemente um investimento de mais de AU$ 25 milhões na reforma de seus campos e centro administrativo e foi colocado à disposição do clube.

Formação do elenco

Desde seu lançamento oficial, o Macarthur vem montando aos poucos o elenco que dará o pontapé inicial na história do clube. O técnico australiano Ante Milicic foi anunciado junto a divulgação da marca do clube, ainda em março de 2019. Como atleta, Milicic atuou em clubes como Sydney United e Canberra FC e chegou a participar dos primeiros anos de A-League jogando por Newcastle Jets e Brisbane Roar, além de passagens pelo futebol holandês e croata.

Ante Milicic

Já como treinador, comandou a seleção feminina australiana na Copa do Mundo de 2019 e anteriormente foi auxiliar-técnico dos Socceroos, além de fazer parte da comissão técnica inaugural de Western Sydney Wanderers e Melbourne Heart (hoje Melbourne City). Espera-se que a experiência na formação desses clubes ajude Milicic em seu primeiro desafio como treinador principal de um time masculino.

Ao longo desses dois anos de preparação, atletas foram sendo anunciados aos poucos e atualmente fazem parte do plantel os goleiros Adam Federici e Nicholas Suman, o defensor Ivan Franjic, os meias Denis Genreau, Tommy Oar e Mark Milligan, o atacante inglês Matt Derbyshire e os centroavantes Milislav Popovic e Moudi Najjar.

Franjic, Milligan e Derbyshire, alguns dos destaques do clube

Com exceção de Derbyshire que passou pelas seleções de base da Inglaterra, todos os outros atletas tiveram convocações para os Socceroos, seja na seleção principal ou categorias de base, com destaque para Adam Federici, Ivan Franjic e Mark Milligan, o que mostra que o Macarthur não está para brincadeira em seu primeiro ano de A-League.

De onde vem a grana

Mesmo em seu pouco tempo de história, o Macarthur já deu o que falar quando o assunto é finanças e administração. O clube nasceu dos investimentos do bilionário Lang Walker, dono da Walker Corporation, empresa de desenvolvimento de propriedades privadas com sede na Austrália e investimentos nos EUA, Canadá e Malásia, e dos empresários Gino Marra e Sam Krslovic, investidores de grupos financeiros, telecomunicações, indústria imobiliária e diversos outros setores, baseados no sudeste de Sydney.

Pouco mais de um ano após seu lançamento oficial, Walker decidiu vender sua parte na propriedade do clube. Os compradores foram Roy Mammone e Michael Gerace, empresários locais do setor imobiliário e indústria automotiva.

Em outubro de 2019 o clube anunciou o patrocínio master da Wisdom Homes, também do setor imobiliário, e parcerias com os councils e empresas locais que renderão cerca de AU$15 milhões nos próximos três anos.

A cadeira de chairman também já mudou de dono em seus primeiros anos de história. O clube iniciou as atividades sob o comando de Rabieh Krayem, ex-dirigente do North Queensland Fury, clube que fez parte dos primeiros anos de A-League.

Em fevereiro de 2020, Krayem deixou o clube e Gino Marra assumiu como CEO. Além de Krayem, dirigentes de futebol como Kean Stead e Archie Fraser, que fizeram parte da fundação do clube, deixaram o Macarthur mesmo antes da estreia do time na liga. Todas essas mudanças geraram um certo burburinho de turbulência no comando do clube, fato comumente desmentido em entrevistas dos atuais dirigentes.

Gino Marra

Programa de sócios revolucionário

Como cartada especial para atrair a comunidade, o Macarthur anunciou um programa de memberships jamais visto nos tempos modernos do futebol australiano. Com o slogan “One voice, one vision”, o programa de associação ao clube permitirá membros adultos a votar e eleger dois dos sete membros do conselho diretivo do clube, dos quais três obrigatoriamente serão mulheres. A iniciativa faz parte da promessa do clube de ser um verdadeiro empreendimento focado na comunidade, onde torcedores comprometidos podem ajudar a moldar o futuro de sua equipe local.

Além disso, o clube lançou também a Macarthur FC Foundation, braço social que trabalhará com programas de alívio e redução da pobreza e sofrimento de indivíduos e grupos desfavorecidos de comunidades com baixo desenvolvimento socioeconômico.

Espaço para desenvolvimento de atletas indígenas

Além de todo o trabalho de envolvimento de sua comunidade, o Macarthur nasceu também com uma proposta de dar voz a uma das minorias mais excluídas da sociedade australiana, os indígenas, essencialmente Aborígenes e povos nativos do Estreito de Torres.

Em parceria com o Campbelltown Council, Walker Corporation e Western Sydney University, o clube criou a primeira academia de futebol indígena do país, em atividade desde novembro de 2019.

Meninos e meninas indígenas locais e de outras partes do país participam do programa com o objetivo de desenvolver atletas de origem indígena e promover oportunidades aos povos nativos.

A academia foi nomeada como Charles Perkins Soccer Academy, em homenagem a um dos melhores jogadores de futebol de origem indígena do país e ativista social. Perkins foi vítima da chamada Stolen Generation, processo ocorrido por anos na Austrália onde crianças nativas eram retiradas de suas comunidades e criadas por famílias ditas “civilizadas”.

O técnico e ex-jogador Frank Farina, primeiro e único de origem indígena a dirigir a seleção nacional australiana, foi nomeado como diretor da academia e comandou todo processo inicial na construção de toda estrutura e desenvolvimento do programa de trabalho com os jovens indígenas.

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