O futebol na Terra dos Cangurus

Um passeio histórico pela Austrália e como as dificuldades na aceitação de suas origens multiculturais atrapalharam no desenvolvimento do futebol no país

por Eduardo Vieira, editor do perfil A-League Brasil no Twitter (@aleaguebr) e do Podcast Australianão no Spotify e YouTube

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Experimentar pesquisar no Google por “futebol australiano” pode ser uma experiência diferente para alguém não familiarizado com a cultura esportiva da maior nação da Oceania. Em sua maioria, os resultados serão relacionados ao Footy, originalmente o Australian Rules Football, o esporte mais popular do país.

Os problemas de identidade em uma simples pesquisa no Google já nos ajudam a entender um pouco por que o esporte mais famoso do mundo não se desenvolveu “down under” como em outros países. Mas essa crise do esporte bretão na terra dos cangurus vai muito além do nome.

Embora seja o mais praticado dentre os esportes coletivos, o futebol é somente o quarto em popularidade na Austrália, perdendo para Footy, Cricket e Rugby. Ao longo dos anos o esporte esbarrou nas diferenças de um país que apesar de formado em sua essência por imigrantes, nunca soube administrar sua multiculturalidade. Desde descendentes britânicos que renegavam a criação de seus antepassados por uma mágoa histórica, até a difícil aceitação de povos imigrantes que chegaram ao país após a segunda guerra mundial, o futebol nunca teve uma união nacional formada.

Em 2020, após tantas e tantas tentativas de popularização e crescimento do esporte, o futebol vive mais uma vez um momento efervescente na Austrália, com inúmeras discussões acerca de seu futuro. Ao longo dessa reportagem vamos te ajudar a entender todo contexto histórico e o que acontece com o futebol na terra dos cangurus.

Futebol étnico e a importância dos imigrantes

As migrações desencadeadas pelo fim da Segunda Guerra Mundial influenciaram diretamente no futebol australiano. O país foi um dos que mais receberam imigrantes, que chegavam em busca de um lugar onde pudessem iniciar uma nova vida.

Gregos, italianos, alemães, holandeses, poloneses, sérvios, croatas, albaneses, macedônios, turcos e tantos outros povos de inúmeras nacionalidades chegaram ao país e com o tempo passaram a utilizar o futebol como uma ferramenta para manter viva suas culturas e costumes, como retratado na série de documentários produzidos pela Optus Sports, o Football Belongs. Além dos povos europeus, ao longo dos anos chegaram também ao país grupos imigrantes vindos da Ásia, África e até América do Sul.

A paixão pelo esporte e o crescimento do número de estrangeiros gerou um verdadeiro boom na prática da modalidade no fim dos anos 40, fato que desencadeou a criação de clubes étnicos, competições, ligas e associações.

Mas o que parecia ser um propulsor do futebol no país terminou sendo um fator determinante como barreira para a difusão do esporte. Australianos de origem anglo-saxônica, a maioria até os dias de hoje, não viam com bons olhos a chegada de imigrantes e como consequência se afastavam de atividades praticadas pelos estrangeiros, dentre elas o futebol. Da mesma forma que a cultura fechada e uma postura defensiva desses povos fazia com que pessoas de origem étnica diferente não fossem bem vindas em seus clubes, seja como atletas ou torcedores. Além disso, a violência também era comum com a rivalidade étnica de alguns povos alimentada desde os tempos de Europa.

As diferenças passaram então a ser um empecilho para uma unidade nacional e o esporte era cada vez mais visto como uma atividade de estrangeiros, com pouquíssima assimilação entre os “verdadeiros” australianos.

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Remorso de um passado penal

Você pode estar se perguntando, “mas o futebol não foi inventado pelos britânicos? Se os anglo-australianos são descendentes da Rainha, por que eles não se sentiam representados e tão pouco se interessavam pelo esporte?”

Sim, o futebol foi inventado pelos britânicos e também trazido por eles na colonização. Ingleses, escoceses e irlandeses chegaram ao país quando a Austrália era somente uma colônia penal do Império e  justamente o fato da colonização australiana ter nascido de uma grande prisão fazia com que as gerações subsequentes dos que eram enviados ao país tentasse se afastar da cultura britânica o quanto podiam, dado o estigma de seus antepassados terem sido expulsos do império e relegados à uma colônia distante e até então pouquíssimo civilizada.

A invenção e desenvolvimento do Australian Rules Football, uma mistura de futebol gaélico com esportes aborígenes, foi a primeira tentativa de criação de uma identidade nacional a partir de meados dos anos de 1850. O futebol desde sua chegada ao país, nesse mesmo período, era visto como um esporte de estrangeiros, enquanto o Footy era alimentado ao longo dos anos como algo originalmente australiano.

Socceroos e National Soccer League

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Mesmo com a divisão, o futebol se desenvolvia como nunca após a Segunda Guerra Mundial, embora que de forma tímida comparado a febre do Footy. Ligas regionais passaram a existir e mais tarde a primeira seleção nacional de futebol, acompanhando o desenvolvimento e o sucesso das Copas do Mundo.

A primeira classificação dos Socceroos para o Mundial só veio em 1974 e, mesmo com a eliminação ainda na primeira fase, rendeu frutos. A participação ajudou a gerar uma nova onda de interesse pelo futebol e três anos mais tarde, em 1977, nasce a primeira grande competição nacional, a National Soccer League (NSL).

Dos 14 times fundadores da liga, 12 eram de origem étnica e somente dois anglo-australianos, tendência que teria sequência ao longo dos anos e seguia como barreira à popularização do esporte. Sem representatividade, os descendentes britânicos preteriam o futebol e partiam para as outras modalidades.

Em uma tentativa de ultrapassar as barreiras, a partir dos anos 80 a NSL passou a proibir clubes de utilizarem nomes de origem étnica e até evitar cores e cantos de torcidas que remetesse aos países de seus antepassados. Agremiações como South Melbourne Hellas, time mais tradicional do país, e Melbourne Croatia, por exemplo, tiveram não só que reduzir seus nomes, como também tentar controlar a paixão cultural de seus fãs e associados.

Torcida do South Melbourne | Foto: Cindy Nitsos

A medida foi encarada por dirigentes e torcidas como uma afronta às culturas e o que seria para atingir o mainstream australiano só gerou descontentamento, fazendo o campeonato cair em desgraça nas décadas seguintes.

Crawford Report

Atrelado aos impasses étnicos, os Socceroos colecionavam fracassos após 74 nas tentativas de se classificar a mais uma edição da Copa do Mundo. O futebol passou a ser visto por australianos como vergonha nacional aos olhos do mundo e cada vez mais afastava o grande público dos estádios.

Todo o descontentamento e desunião nacional fez com que o governo, impulsionado pelos investimentos feitos no esporte no período pós-Olimpíadas de Sydney, buscasse uma medida drástica para a reformulação do futebol na Austrália.

Em 2003, o então ministro dos esportes Rob Kemp cria o Comitê Nacional de Revisão do Futebol e o resultado é um relatório chamado “Crawford Report”, um verdadeiro divisor de águas na conturbada história do futebol na Austrália. O documento aponta uma série de problemas que citavam desde a violência entre as torcidas à má administração da NSL e suas ligas regionais, com casos até de corrupção, declarando a liga como inviável financeiramente.

Com base no Report, o governo resolve extinguir a NSL e mudar toda estrutura da então Australian Soccer Association (ASA), fundando a Football Federation of Australia (FFA) e anunciando a criação da A-League, uma competição lançada como um marco que modernizaria de uma vez por todas o futebol na terra dos cangurus.

A-League: uma cidade, um time

Fugindo de toda e qualquer ligação étnica, a A-League nasce com formato baseado no modelo de franquias, onde clubes-empresas pagariam por uma licença para entrar na disputa. O slogan “Uma cidade, um time” trazia o objetivo de ajudar os clubes recém-formados a desenvolver suas torcidas em torno da identidade de cada grande metrópole australiana.

O marketing em torno da novidade e a histórica classificação da Austrália para a Copa do Mundo de 2006, após 32 anos de espera, fizeram com que a competição tivesse bons números em seus primeiros anos. Astros como Romário, Del Piero, Heskey, Robbie Fowler, Dwight Yorke, dentre outros, vieram como jogadores-bilheteria na tentativa de atrair mais ainda a atenção do público.

A mudança do país para a Confederação Asiática de Futebol aumentou o nível do esporte em termos continentais. As equipes melhores colocadas na A-League passaram a se classificar para a Champions Asiática, enquanto os Socceroos disputavam jogos contra seleções mais fortes, com resultados cada vez melhores, alcançando até um título da Copa da Ásia e classificações seguidas para as Copas do Mundo.

NPL e a sobrevivência do futebol raiz

Parecia que tudo ia bem na reformulação, mas e os clubes étnicos e suas torcidas apaixonadas? Para onde foram?

Esquecidos pela FFA e minimizados pelo sucesso da A-League, os clubes do chamado grassroots, o bom e velho futebol raiz, passaram a disputar somente competições regionais em seus estados e a sofrer extrema dificuldade financeira. Sem a mídia não conseguiam atrair grandes investimentos ou patrocinadores. Para piorar a situação, em meio a toda reformulação a FFA extinguiu também o sistema de transferências no país, proibindo que os clubes obtivessem lucro pela saída de um atleta para outra equipe com a justificativa de equilibrar a disputa na nova competição. Com isso, clubes da A-League passaram a retirar jovens talentos dos clubes étnicos sem nenhuma compensação financeira.

Estádio do Hume City, um dos grassroots | Foto: David Alter

Em 2013, depois de muito protesto do futebol raiz pedindo por mais investimento e atenção, a FFA resolve criar uma liga nacional paralela a A-League, onde o grassroots e suas origens étnicas seriam inserido e poderiam voltar a disputar competições de maior porte, mantendo assim a sua sobrevivência. Nasce então a National Premier League (NPL), administrada também pela FFA e dividida regionalmente entre os estados e territórios australianos.

Embora com menor investimento e mídia em comparação a A-League, a NPL já nasce grande em proporção, dividida em oito federações e suas State Leagues, onde os campeões da primeira divisão de cada região se enfrentam em Final Series. Também foram formadas copas regionais e uma grande copa nacional, a FFA Cup, que em 2020 teria 765 times e é a única possibilidade de enfrentamento entre equipes de tradição e origem étnica e os clubes recém criados para a A-League, onde você pode imaginar, os jogos pegam fogo.

A criação da NPL e das State Leagues deram um gás novo aos clubes do futebol raiz. O castigo recebido nos anos anteriores serviu de aprendizado e muitos clubes perceberam que é possível administrar as paixões culturais de forma profissional e rentável. 

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Estagnação da A-League e pressão para novas mudanças

Em meio a criação da nova NPL, a A-League viu seus números de audiência e média de público estagnarem, especialmente após 2015, quando uma queda em popularidade passou a ser registrada. A comparação com os outros esportes mais populares era inevitável. Enquanto o Footy registra médias de 40 mil pessoas por partida, o futebol luta para ultrapassar entre 12 e 13 mil fãs por jogo.

Até que chegamos aos dias atuais, onde um grande movimento tomou conta do país em torno da comunidade do futebol para uma nova reformulação. Dirigentes, torcidas, parceiros comerciais, imprensa, atletas e ex-atletas cobram a FFA por mudanças.

O que parecia uma ideia revolucionária com a criação da A-League, cai cada vez mais no gosto do australiano. Atualmente 11 equipes fazem parte da liga, que terá 12 na próxima temporada. Sem segunda divisão estabelecida, o torneio não tem um sistema de promoção e rebaixamento, o que atrapalha em termos de emoção, já que não existe o temor por parte de times e torcida por um descenso.

O sistema de transferências segue inexistente e ainda trava o desenvolvimento e fortalecimento das equipes do grassroots, assim como a dificuldade dos clubes na geração de novos talentos que possam chamar a atenção de equipes mundo a fora e levar o nome do futebol australiano além da Oceania. São poucos os jogadores australianos atualmente em grandes equipes das maiores ligas do mundo.

Os Socceroos seguem com bons resultados no continente, mas com o nível elevado de exigência a pressão agora e por desempenhos melhores em Copas do Mundo, onde a melhor campanha foi a chegada às oitavas, em 2006, eliminados pela Itália.

Histórica seleção australiana de 2006 | Foto: AAP/Mick Tsikas

Todos esses pontos citados são os principais temas da pressão feita em cima da FFA para mudanças que precisam ser feitas. O novo CEO da Federação, James Johnson, assumiu o cargo no começo de 2020 com a missão de unir as partes envolvidas e definir o que será feito do futuro do futebol na Austrália.

Ao longo do ano a entidade realizou diversas conferências, a maior parte delas online por conta da pandemia, para ouvir a comunidade do futebol e entender o que cada um pensa sobre o assunto. O resultado gerou um documento chamado “XI Principles for the Future of Australian Football”, que será a base de toda e qualquer transformação a ser feita nos próximos anos.

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A criação de um sistema de transferências e de uma B-League como segunda divisão nacional, onde clubes do grassroots poderão ser incluídos, são os principais assuntos de momento e devem ser as maiores novidades nos próximos anos.

Embora necessárias, as mudanças são encaradas com muita cautela pela FFA, que reconhece publicamente que chegou a hora da Austrália aceitar suas raízes multiculturais e unir o futebol moderno ao raiz, conciliando a paixão de povos que ajudaram a formar o país ao profissionalismo do sistema de clubes-empresa que pede o momento atual.

O potencial do futebol na Austrália é gigante. A multiculturalidade permite o país a ter atletas de todas as características possíveis, mas a falta da unidade nacional impede o desenvolvimento de novos talentos. Caso encontre seu caminho, a Austrália, que apesar de seus problemas culturais é uma das grandes potências mundiais, tem capacidade para se tornar grande também no futebol.

Será que eles vão conseguir? Acompanhamos os próximos capítulos aqui na Revista Série Z.



um comentário

  1. Top o texto Dudu, grande contribuição para os brasileiros que não conhecem o contexto em que você está inserido! Grande abraço, Ronaldo Alves.

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