Foi horrível, mas está bom

por Matheus Gerlach

Você já imaginou a sua seleção perdendo de 12 ou 15 a 0? Pois é, difícil. E se eu te disser que foi a Seleção Butanesa que foi goleada, já é possível imaginar? Mas será que e os butaneses, por conhecerem a capacidade técnica do próprio futebol imaginavam tal situação? Eu respondo: não!

Não, eles não são cegamente apaixonados pelo futebol local a ponto pensar que não podem ser goleados, eles simplesmente nem imaginavam que poderiam chegar a jogar. Calma, eu te explico.

Para entender a situação, é preciso que você tenha ciência de alguns aspectos geográficos e históricos. Começamos pelo fato de que o Butão tem pouco mais de 38 mil m², 38.394 para sermos exatos, 4.802 m² menor que o estado do Rio de Janeiro. Sim, é um país minúsculo.

O segundo passo é entender a representatividade esportiva quase nula nesse pequeno Reino com três argumentos. Iniciamos lembrando que a delegação butanesa foi a primeira delegação a se despedir dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Em segundo lugar, o próprio presidente do comitê olímpico butanês Sonam Karma Tshering disse em uma entrevista a frase “Não temos uma cultura esportiva no Butão”. E por último, o esporte nacional do Butão é declaradamente o tiro com arco, devido à uma tradição milenar, e mesmo assim, nunca ganharam uma medalha olímpica na modalidade.

Pronto, agora podemos começar a falar sobre futebol, mas ainda contextualizando o cenário histórico. A recente trajetória do futebol no Butão teve seu primeiro registro em 1974, ainda que não seja confirmado oficialmente, uma equipe nacional teria ido jogar um torneio amistoso no Nepal. Segundo a Federação de Futebol do Butão, o primeiro jogo foi em 1° de Abril de 1982, em uma derrota contra o Nepal por 3 a 1.

Somente no ano seguinte, seria criada a Associação de Futebol do Butão, passando a ter o nome que vigora até hoje somente em 2000, ano em que se filiou à ACF e à FIFA. É isso mesmo, você que está lendo agora muito provavelmente é mais velho do que tal fato. Inclusive, talvez até seu filho seja ou está próximo disso.

Outro aspecto que vale ser ressaltado é que mesmo com a Coca-cola investindo no futebol Butanês, a liga não é profissional. O último prêmio registrado para o campeão nacional foi de 400 mil ngultrum (moeda local), menos de 20 mil reais. Para uma comparação mais eficiente e nada justa, no último ano o campeão brasileiro recebeu 17 milhões de reais.

Agora, sabendo que a federação de futebol de um país, cujo esporte nacional é tiro com arco, tem 34 anos e levando em conta que o futebol local é amador, acredita em 12 ou 15 a 0? Mas e se eu disser agora que ninguém ficou decepcionado com os resultados? Calma, eu explico isso também.

Até o dia 11 de março de 2015, o Butão tinha a pior seleção do mundo. Ocupava a 209° posição, mais conhecida como “última”. Mas isso não é somente culpa da qualidade técnica dos butaneses, ou a falta dela nesse caso. O Butão teve pouquíssimas oportunidades de disputar partidas internacionais, o que diminuiu a possibilidade de somar pontos. Tendo em vista que em jogos oficiais os perdedores também pontuam.

No dia seguinte o panorama começou a mudar. A vitória por 1 a 0 sobre Sri Lanka fora de casa e a vitória por 2 a 1 no jogo da volta, fez com que a seleção butanesa passasse de fase pela primeira vez nas Eliminatórias da Ásia, qualificando-se para o Grupo C com Catar, China, Hong Kong e Maldivas.

Além de surpreender nas eliminatórias da Rússia 2018, a antiga pior seleção do mundo também se superou nas Eliminatórias da Copa da Ásia, onde empatou em 0 a 0 com Bangladesh no primeiro jogo dos playoffs e venceu por 3 a 1 no segundo, passando de fase também nas eliminatórias locais, fazendo com que “os dragões” tenham um calendário de no mínimo dois anos de competições oficiais pela primeira vez. Já falamos sobre a surpresa, agora vamos ao desastre.

Começando pelas Eliminatórias da Copa da Ásia, onde em dois jogos o Butão não marcou nenhum gol e sofreu 16, sendo sonoros 14 a 0 logo na estreia contra Omã. Matematicamente, claro que ainda há chance, mas a esperança não é muito grande, já que os outros dois adversários do grupo são Maldivas, que tem três vitórias nos últimos três jogos contra Butão, e Palestina que venceu a seleção de Omã, aquela dos 14 gols em um jogo só, por 2 a 0.

Se no continental ainda há esperança, nas Eliminatórias para a Copa do Mundo elas já não existem mais. A seleção surpresa dos últimos anos foi eliminada na segunda fase com oito derrotas em oito jogos. Além do 0% de aproveitamento, a seleção mostrou que não melhorou o suficiente desde que saiu da última posição. Tomou 52 gols na segunda fase e marcou apenas cinco, todos contra as Maldivas, adversário da Copa Asiática. A média de gols sofridos foi de 6,5 gols por jogo.

Resta sonhar. Sonhar que em um futuro não tão distante, o Butão chegue em uma terceira fase das eliminatórias ou, se é para sonhar, por que não sonhar com uma classificação na Copa da Ásia?

A classificação

Tudo estava normal no futebol butanês, mais uma partida, talvez mais uma derrota ou quem sabe conseguir um empate, afinal, em sete anos, era isso que a Seleção do Butão fazia.

Desde junho de 2008, após uma vitória por 3 a 1 sobre o Afeganistão, o Butão não sabia mais o que era ganhar uma partida.

Coube à Tshering Dorji, com 21 anos na época, encerrar esse jejum, Dorji marcou o gol da primeira vitória butanesa em quase sete anos. Vitória dentro de Sri Lanka, encaminhando a classificação inesperada.

A confirmação da classificação veio no jogo de volta da semana seguinte. Quando Chencho Gyeltshen, o único jogador profissional do elenco, marcou duas vezes na vitória por 2×1.

Chencho é o maior ídolo do futebol local. Na época da partida, ele tinha somente 18 anos. Desde o primeiro jogo dos playoffs contra a seleção de Sri Lanka, o atacante que atua no futebol tailandês marcou mais gols sozinho do que todo os outros jogadores de sua seleção somados. Foram seis dos 11 gols marcados pelos dragões nos últimos dois anos. 

Juntos, Chencho e Dorji, que aparecem comemorando o gol com a camisa 16, são responsáveis por nove dos citados 11 gols. Os outros dois foram marcados por Chimi Dorji (não confundir com Tshering Dorji), o primeiro gol da vitória por 3 a 1 sobre Bangladesh e por Basnet, nos acréscimos do segundo tempo da derrota por 4 a 3 em casa para as Maldivas, pelas eliminatórias da Copa Asiática de da Copa do Mundo respectivamente.

 “A outra final”

Muitas pessoas conheceram o futebol dos dragões no início dos anos 2000. Não por alguma façanha ou por alguma goleada, mas sim por um filme.

No dia 30 de junho de 2002 Brasil e Alemanha se enfrentavam no Japão, pela final da Copa do Mundo. Enquanto isso, em Timpu, capital do Butão. Uma empresa Holandesa promoveu um amistoso entre Butão e Montserrat, que na época eram as duas últimas seleções do ranking da FIFA.

O jogo foi gravado e transformado em um documentário de quase uma hora e meia , dirigido por Johan Kramer, e lançado em 2003. O final? 4 a 0 Butão com três gols de Wangay Dorji (novamente, não confundir com Tshering Dorji).

Eliminatórias Asiáticas – Foi bom enquanto durou

Como funciona

As Eliminatórias da Ásia para a copa da Rússia do ano que vem foi composta por 46 equipes, todas as filiadas à AFC atualmente com exceção da Indonésia. A fase inicial em 12 seleções se enfrentando em dois jogos para ver quem avança para a segunda fase.

A partir dessa definição, divididas as 40 seleções restantes em oito grupos com cinco participantes cada, onde todos se enfrentam em turno e returo, classificando o melhor colocado de cada grupo e os quatro melhores segundos colocados no geral para a terceira fase.

A terceira fase também é dividia em grupos, mas dessa vez em dois com seis membros, qualificando-se os dois melhores de cada grupo para a Copa do Mundo e os dois terceiros colocados fazem jogos de ida e volta na repescagem asiática.

As eliminatórias se iniciaram no dia 12 de março de 2015 e a última rodada da terceira fase foi dia 31 de agosto. A repescagem  ainda não tem data prevista.

O caminho butanês nas Eliminatórias da Ásia para a Copa do Mundo da Rússia 2018.

12/03/2015 – Sri Lanka 0x1 Butão

17/03/2015 – Butão 2×1 Sri Lanka

11/06/2015 – Hong Kong 7×0 Butão

16/06/2015 – Butão 0x6 Chinad

03/09/2015 – Catar 15×0 Butão

08/10/2015 – Butão 3×4 Maldivas

13/10/2015 – Butão 0x1 Hong Kong

12/11/2015 – China 12×0 Butão

17/11/2015 – Butão 0x3 Catar

29/03/2016 – Maldivas 4×2 Butão

Eliminatórias para a Copa da Ásia – Será que vai?

Como funciona

Assim como nas Eliminatórias da Copa do Mundo, as Eliminatórias da Copa da Ásia tem um sistema de playoffs. Nessa edição, o Butão jogou somente a segunda das duas rodadas de playoff, passando por Bangladesh.

O playoff é composto por 11 que se enfrentam em jogos de ida e volta para conhecer os três participantes que se juntarão com outras 21 seleções divididas em seis grupos.

Os dois melhores de cada grupo vão para a Copa da Ásia.

Dois tropeços iniciais, mas a busca por uma superação histórica continua.

28/03/2017 – Omã 14 x 0 Butão

13/06/2017 – Butão 0 x 2 Maldivas

05/09/2017 – Butão x Palestina

10/10/2017 – Palestina x Butão

14/11/2017 – Butão x Omã

27/03/2018 – Maldivas x Butão

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