O interior uruguaio e a Copa de 2030

Matéria de 5 de julho de 2013, que foi atualizada para publicação na Revista Série Z, que pode ser vista abaixo.

Ainda não há nada definido, mas é para pensar: será que o interior uruguaio comporta uma Copa do Mundo?

Em 2013, Julio Grondona, então presidente da Associação do Futebol Argentino (AFA) garantiu que a Copa do Mundo de 2030 seria sediada em conjunto por Uruguai e Argentina, pois esta edição celebrará o centenário da competição e a escolha por esses países levaria em conta que os selecionados fizeram a final em 1930 vencida pela Celeste, sede da competição.

A ideia do Mundial ser realizado em solo sul-americano surgiu como uma surpresa e logo foi se perdendo no tempo, seja pela morte de Julio em 2014 ou pelos escândalos envolvendo a FIFA. “Não se fala muito da Copa. Os rumores tomam força quando se disputam jogos importantes das (Eliminatórias e) Copa e quando se fala dizem que será compartilhada com a Argentina, porque não temos a infraestrutura para um Mundial”, conta a uruguaia Rossina López Cuevasanta, 22 anos, estudante e auxiliar contábil.

Uma Copa do Mundo exige estrutura e estádios por todo o país, mesmo que a capital comporte mais de uma arena. Assim fica a dúvida quanto às sedes. A Argentina não deve ter problemas quanto a isso, levando em consideração que várias cidades contam com um futebol forte e o principal, com torcida. Enquanto o Uruguai tem um monopólio futebolístico em Montevidéu.

A FIFA exige que os estádios para a Copa do Mundo devem ter no mínimo 30 mil lugares, se bem que o que se vê nas últimas edições são estádios com mais de 40 mil lugares. Provavelmente seriam dez sedes (neste caso, cinco para cada país), como na África do Sul em 2010.

Em 1930, a Copa do Mundo do Uruguai poderia muito bem se chamar Copa do Mundo de Montevidéu, pois os três estádios que foram sede eram da capital uruguaia. Esse cenário preocupa para uma possível volta do torneio para o país: a situação do interior uruguaio. “Montevidéu e Punta Del Estas são cidades com uma estrutura, no mínimo, razoável para atendimento ao turista e não teriam problemas na questão de hotelaria e de transporte. Colonia ainda tem a vantagem de estar a menos de 100 km de barco de Buenos Aires e o transporte fluvial entre as duas cidades é normal”, conta o jornalista Victor de Andrade, 38 anos, que já viajou cinco vezes para o Uruguai, como turista, sendo a última em março de 2015. Entretanto, Victor cita que o interior apresenta problemas. “As cidades são pequenas, pouca rede hoteleira e transporte apenas de ônibus”. Punta Del Este teria a vantagem de ser “grudada” em Maldonado, cidade interiorana que segundo Victor possui o melhor estádio fora da capital.

Estádio Domingo Burgueño Miguel, em Maldonado, 25 mil pessoas, um dos favoritos do interior uruguaio para receber uma Copa
Estádio Domingo Burgueño Miguel, em Maldonado, 25 mil pessoas, um dos favoritos do interior uruguaio para receber uma Copa

Segundo o Censo 2011, a capital do país praticamente comporta metade da população. Montevidéu tem uma população de um milhão e 305 mil pessoas, sendo que o Uruguai conta com cerca três milhões e 300 mil pessoas. A diferença é considerável para Ciudad de la Costa, a segunda maior cidade uruguaia, com 112 mil pessoas, mas que fica na região metropolitana da capital, apesar de ser de outro departamento.

Essa disparidade reflete no futebol. A temporada 2015/16 do Campeonato Uruguaio da Primeira Divisão conta com 16 clubes, onde apenas duas equipes não são da capital: Plaza Colonia (Colonia del Sacramento, 26 mil, vigésima maior cidade) e Juventud (Las Piedras, 71 mil pessoas, sétima maior cidade) são os representantes não capitalinos da elite uruguaia, sendo que o segundo fica na região metropolitana de Montevidéu, mesmo que em outro departamento, Canelones. Sud América e El Tanque Sisley são de Montevidéu, mas vêm mandando seus jogos fora da capital.

As cidades têm uma população semelhante ao número de lugares que os estádios devem contar, mas isso não é o pior, a torcida dos dois clubes não comportam possíveis arenas. O estádio do Plaza conta com 15 mil lugares, enquanto o de Las Piedras comporta 12 mil pessoas. Como vimos existe uma grande diferença.

“O Estádio Suppici, de Colonia del Sacramento, teria que sofrer inúmeras obras de estrutura para ser uma sede de Copa do Mundo, comparando com os estádios que vi jogos na Copa de 2014. O Suppici até tem uma boa estrutura para o Campeonato Uruguaio, mas fica muito longe para ser sede da Copa de 2030”, conta Victor, que assistiu jogos do Mundial de 2014 em Curitiba e São Paulo.

Na temporada 2012/13, o volante Pedro Mondardo, 21 anos, defendeu o Cerro Largo (Melo, 52 mil, nona maior cidade) e segundo ele, os próprios moradores do interior, apesar da paixão pelo clube, o tratam como um segundo time. “Todos da cidade gostam e apoiam o clube, tem torcida organizada que não para de apoiar, mas claro que seus primeiros times são os da capital como Peñarol, Nacional e Defensor, por isso os jogos contras os grandes times eram os que mais enchiam”.

Ciudad de la Costa, Salto (104 mil), Paysandu (87 mil), Maldonado (84 mil), Rivera (79 mil) são as maiores cidades do “interior” uruguaio e destas, apenas uma possui representantes na segunda divisão. Tal divisão que em 2015/16 conta com 15 clubes, destes apenas cinco são do interior: Tacuarembó (Tacuarembó, 54 mil), Atenas (San Carlos, 27 mil), Cerro Largo (Melo), Deportivo Maldonado (Maldonado) e Rocha (Rocha, 25 mil). O Oriental não é de Montevidéu, e sim de La Paz, mas é o mesmo caso do Juventud. O Boston River e o Huracán são capitalinos, mas jogam fora da cidade, sendo que o segundo disputa suas partidas em Rivera. Apenas o Tacuarembó e o Deportivo Maldonado têm sede em uma cidade interiorana com mais de 40 mil pessoas, número “mínimo” de capacidade dos estádios construídos para as últimas edições da Copa.

O maior estádio do interior uruguaio fica em Rivera, o Atilio Paiva Oliveira, que comporta 27 mil pessoas. A cidade conta com o Frontera Rivera que atualmente faz parte do futebol amador uruguaio, depois de grave crise financeira no começo do século. Paysandu conta com o estádio Parque Artigas, que tem a capacidade de 25 mil e já foi sede de uma Copa América, mas os seus dois clubes não condizem com o tamanho da cidade, pois o Estudiantil Sanducero e o Paysandú Bella Vista, também disputam as ligas amadoras regionais.

Estádio Atilio Paiva Olivera, em Rivera, 27 mil espectadores, o maior do interior uruguaio
Estádio Atilio Paiva Olivera, em Rivera, 27 mil espectadores, o maior do interior uruguaio

“O Uruguai sediou a primeira Copa do Mundo em 1930. Experiência eles têm, mas muita coisa mudou, o interior do país é formado de cidades pequenas sem muitos meios de locomoção e a hotelaria não sei se aguentaria tantas pessoas. Acho que sozinho o país não conseguiria receber uma copa hoje, mas com o auxilio da Argentina, sim”, cita Pedro Mondardo.

O cenário não é favorável para o interior uruguaio. Montevidéu deverá ter, caso o Uruguai seja sede, dois ou três estádios na competição. A situação do interior fica comprometida. Levantar elefantes brancos em um dos países mais equilibrados da América do Sul não parece estar em pauta, mas tirar o interior dessa festa é injusto. Levando em conta o futebol: Melo, Las Piedras e Maldonado estão na frente, mas isso não é garantia de sucesso pós-copa pelo contexto atual.

Para ver os outros estádios acesse a edição número 1 da Revista Série Z, que possui outras histórias do futebol alternativo.

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3 comentários em “O interior uruguaio e a Copa de 2030

  1. A candidatura conjunta Espanha-Portugal para a Copa de 2018 previa 8 sedes na Espanha e 2 em Portugal. Algo similar provavelmente iria ocorrer numa Candidatura Argentina – Uruguai

  2. Hoje temos o Centenario, o Parque Central e o de Maldonado que necessitam de reforma. E temos o novo estádio do Peñarol. Acho que seria uma alternativa para se evitar a construção de elefantes brancos. E a Argentina ficaria com seis estádios. Parabéns pelo texto.

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